segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A era grunge: quando o dirty era cool, e nem tudo era o que parecia


A era grunge assinalou o começo da parte mais esfuziante da minha vida. Lembro-me como se fosse ontem da festa de aniversário do Márcio Costa, em 1996, e de olhar para a mesa onde havia vários garotos, e entre eles um se destacava pela beleza descomunal, aquela da qual costumamos desconfiar, pois ninguém tão belo pode ser muito mais do que aquilo. Já não seria bom o suficiente ser abençoado com tanta beleza? Talvez por isso muitos belos se tornem preguiçosos, e não é que sejam literalmente vazios, mas muitas vezes se desinteressam por aprender algo mais. O Xuxa (na foto acima, de Márcio Costa), primeiro amor da minha vida, não era assim, mas só mais tarde vim a perceber.
Naquele instante, e distraída como sempre, só o que me fez virar o rosto em sua direção foi o comentário de uma amiga: "Olha aquele moço, que lindo! Parece o Brad Pitt".
Ele pouco falava. Nada de efeitos especiais. Grunge. Simples. Mas sorria, sincero de coração. E os olhos brilhavam. A perna esquerda balançava sem parar. Nervoso. Agonia. Vontade. Desejo. Afinal, tudo começaria ali, naquela noite.
Na hora de me levar embora, ficou meio sem jeito. Em meio a carros caros, lá estava o passatinho velho dele: "O meu é esse aqui... se você não se importar". O passat era tão velho que tinha um rombo no assoalho que dava pra ver o asfalto correr, enquanto ele dirigia. Lixo. Grungíssimo! E eu não tardei a responder: "Não ligo pra carro, não". Quando ele me deixou em casa, lhe roubei um beijo, o beijo que ele, tímido como era, jamais daria no primeiro encontro. Impulsivo, como a vida.

Naquele tempo, Brad Pitt bombava. Antes de se tornar esse bochechudo velhote casado com uma Angelina Jolie pele e ossos, Pitt, nos anos 90, era o ator mais bonito de Hollywood e fazia sucesso com o filme "Lendas da Paixão", no qual interpretava um aventureiro, que saía por aí quebrando o coração das mocinhas apaixonadas, ao mesmo tempo em que balançava seus viris cabelos longos. Isso também me fez pensar que talvez por trás de toda aquela beleza do Xuxa estivesse um espírito de aventura incontrolável e nada mais poderia eu esperar dele.
Estava enganada. Por trás daquele autêntico look grunge da época - cabelos rebeldes, camisa xadrez sobreposta e visual mega despojado - havia um romântico incurável, um anjo em busca de muito mais do que amor, um gentleman atrás de sua rainha, um ser humano em constante aprendizado, que me mandava rosas vermelhas em cada ocasião especial, com versos recheados de paixão. Não eram 'lendas da paixão'. Era de verdade.
E por aí se vê que não é só na Disney que a história se repete. Por trás de toda fera existe um coração pulsando. Dentro da capa do grunge havia uma carência descomunal, uma necessidade colossal de ser amado.






Mas voltemos ao grunge e aos 90. O grunge surgiu na fria Seattle (USA), terra de Kurt Cobain, vocalista do Nirvana, por isso não era sempre fácil manter um visual grunge numa calorenta Catanduva, mas não é que até as meninas andavam pela cidade com suas blusinhas de estampas xadrez, rasgadinhas na manga e calças largas bem baixas? Simples: a diferença estava nos tecidos. Em vez da flanela, muitas vezes entrava o algodão. À noitinha, para os meninos, não era tão difícil jogar um colete estiloso por cima da camisa ou camiseta.


Grunge que é grunge, como o Xuxa foi - mas um grunge careta, super saudável e certinho - tira foto assim: de cara lavada e cabelo molhado. Não tem que arrumar nada, não.
E aliás, me lembrei de uma história bem engraçada referente à primeira foto: eu não ia participar do photoshoot, até que o Márcio me chamou pra foto. Eu estava com uma camiseta super surrada, então o 'senhor fotógrafo' me jogou uma jaqueta verde de seus tempos de Tiro de Guerra. E lá fui eu, também de cara lavada e cabelos sujos de Kurt Cobain, posar pra uma foto que eu nunca mais esqueço.
A jaqueta ficou meio grande, sim, e daí? Nos anos 90, as roupas ficavam meio assim. Nada podia ser muito certinho, era tudo meio rasgado (ou muito rasgado).

Os grunges dos arredores de Washington, aliás, compravam suas roupas em brechó, como deve fazer Marisa Monte até hoje. Convenhamos que não foi o período mais chic da nossa história da moda, mas foi uma época que deixou saudades e que me marcou muito, quando viajava pelo Brasil ao som de Renato Russo e "somos tão jooooovens, tão joooooooooooovens...". E éramos mesmo.
As modelos mais top da época eram Cindy Crawford e Claudia Schiffer, aqui na foto abaixo num estilo meio grunge simples de ser.




Outra banda responsável pelo sucesso comercial do grunge foi a Pearl Jam.





E o mais engraçado é que esse estilo tem voltado. Claro que não como era antigamente, quando a moda literalmente se espalhava, quase como num movimento simbiótico. Hoje, cada um faz a sua moda, escolhe o seu jeito de ser, e quem se identifica com o estilo tenta copiar, como é o caso da modelo Cara Delevingne, que veste agora um estilo conhecido como "new grunge".





O modelo e ator Diego Cristo chegou a desfilar pra Colcci num modelo estilo grunge.




A cantora Rihanna é muito criticada pelo seu jeito de se vestir, mas na realidade ela se sente confortável assim, em determinadas ocasiões, como na foto abaixo, e a super grunge camisa de flanela xadrez.






Angelina Jolie nos 90, antes de se tornar essa 'madre de la via dolorosa', eleita mais mais de tapetes vermelhos, já pintou e bordou de puro grunge.






Ainda há aqueles que nunca deixaram de ser grunges, como Johnny Depp, que parece que vai ser pra sempre aquele cara aventureiro, meio bizarro, pirata dos nossos corações, sem eira, nem beira, nem rumo e completamente irresistível. Nessa época ele namorava Kate Moss.






Colin Farrell é outro bonitão num jeito avesso de ser, assim meio punk, sujinho, meio grunge.


Elementos grunges: camisa de flanela e colete.





Elementos grunges: camisa xadrez e lenço.






Elementos grunges: camiseta surrada e cabelo comprido.





Gisele Bundchen, que nunca escondeu de ninguém que é fashion só a trabalho, é sempre vista super à vontade e adora camisas xadrez, um ícone do estilo grunge.



E Drew Barrymore, que tem a mesmíssima idade que eu, prova que adora o estilo grunge até hoje, depois de já ter vivido vários personagens com sua carinha delicada da eterna menininha do filme E.T.



Drew, aliás, é grunge de corpo e alma, pois parece não estar nem aí pra cocada. E não é que é esse mesmo o espírito do grunge?

O objetivo do grunge não é necessariamente ser atraente, mas acabava sendo. Kurt Cobain, por exemplo, é visto na maioria das fotos de cabelos oleosos - dizem, aliás, que o termo grunge vem de grungy (algo como "sujo"), e realmente foi difícil achar uma foto em que o Kurt Cobain estivesse "bem".
Também foi um estilo que passou longe dos chamativos anos 80. Aquela junção de roupas não era necessariamente algo a 'ser visto'. Era um desleixo de quem parecia não 'estar nem aí'. Até o cabelo da gente não tinha que ficar arrumadinho. A gente lavava e batia, pra ficar selvagem. E o legal era isso mesmo: não estar nem aí. Deixa o cabelo crescer, deixa o vento bater. Por isso, foi difícil pra muita gente, porque nem todo mundo fica bonito nesse look.

 Axl Rose ficava e deve ter saudades dessa época, quando era tão bonito. Ainda me lembro das festinhas regadas ao som de suas músicas, quando o Xuxa dançava ao seu estilo e jogava o cabelão pra lá e pra cá...




A moda grunge invadiu as passarelas ultimamente.





E os tapetes vermelhos...





E a coleção de St Laurent...




Xuxa com a mega grunge bermuda xadrez que eu guardo até hoje. Detalhe que a segunda foto, a que ele está sentado na janela, foi tirada no primeiro Coliseu Studium, na rua Amazonas, que parecia uma casa de fazendinha. Adorávamos fazer um pit stop lá.
Teve uma época que rolava até mini pizza, com som ao vivo e só rolava puro Legião Urbana, além de outros sons típicos das bandas da época.
As letras das bandas grunge eram normalmente cheias de angústia, muitas vezes abordando temas como alienação social, apatia, confinamento e desejo de liberdade. Tudo isso foi influenciado por um desencanto geral com a sociedade e um desconforto para com os preconceitos sociais.
E tinha realmente uma turma mais engajada naquela época, mais preocupada com as injustiças, em fazer a diferença, mas de um jeito menos 'lame' do que é hoje, quando a moçada parece nem saber do que está falando. A gente não vivia com nossos IPhones, mas a gente certamente tinha mais coração, mais senso de irmandade, e sabíamos mais que hoje que antes de mudar o mundo a gente precisa aprender a pelo menos arrumar a nossa gaveta. Na real, né. E se não era pra ser assim, não era. Nada era politicamente correto. Podia ser correto, mas não politicamente. Era por opção, não por modismo ou pra postar foto bonitinho e engajadinho no Facebook, pra fazer o militante que não é capaz de enxergar nem o mendigo que dorme no chão a duas quadras da casa dele.
Nos anos 90, tínhamos nosso grupo de chocólatras. Fazíamos nossas reuniões mensais, regadas a chocolate e cada um tinha que levar outra parte que seria de um outro alguém desconhecido. Levávamos chocolate pra bairros pobres, porque a gente - eu, Luciano Lima, Elen Branco, Gisele Ruy - achava que todo mundo tinha direito de comer chocolate. Liberdade aos paladares! Chocolate pra todo mundo! Encheríamos o mundo de chocolate se pudéssemos. Enfim, era o que podíamos fazer.
Tínhamos nosso grupo de teatro, queríamos conhecer o mundo, Deus e a nós mesmos, pra sermos pessoas melhores e mais sábias. Pisávamos na bola e não tínhamos medo de pedir desculpas, de se sentir assim meio lixo de vez em quando, meio grunge mesmo.
Abaixo, em momento teatral e posando com look grunge, colorido, despojado, com direito a colete e tudo mais, o anjo grunge ou, simplesmente, o anjo.
Quando chegou em casa a primeira vez pra me buscar, meu pai me disse, com aquele sotaque nordestino e calmo: "Ô, minha fia, não tinha um melhorzinho, não? Esse daí deve usar droga...". Eu empinei o nariz, como sempre fiz e disse: "É o MEU namorado, pai! O que eu escolhi, dá licença!". E depois foi tão amado. Por todos.
Jamais julgue um descabelado.
Hoje estão os dois no céu, tenho certeza, trocando os mais altos papos. Como eu queria voltar no tempo grunge dos 90, mas já que não posso, bora olhar pro céu.






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